segunda-feira, 31 de julho de 2017

Essa nossa cena reprisada
parece algo como peça de madeira mordiscada por um cão, nos cantos.
Lascado e úmido, nojento de se olhar.
Mas que sempre remete ao cachorro,
que era tão feliz.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Os dias se repetem.
Chegar em casa depois das dezessete.
Ler as notícias do mundo.
E querer ser um caramujo.
Ou fugir como um marujo.
Ou qualquer coisa que não mareje.
Até tremo na hora,
depois é que descompasso e balanço.
Pra me congelar tem que ser vento mais frio.
Minha bandeira é de tecidos fortes.
Esse teu sopro morno só me hasteou um dedo mais,
me foi só malemolência.
Ritmo que já danço
Abismo é coisa que não toco, não quero sequer pouso,
ainda que me perca de madrugada nessa de desbravar uma selva tua.
Deixo lá.
De funduras tenho cavernas onde nem morcegos habitam, inóspitas partes até para assombração...
Tu então... Seria de muito barulho, nessa silente parte,
à parte.
Por isso não te ofereço aqui, sequer uma tarde,
um tour ou cafezinho, não tem nada a contemplar de novo, não encontrarás espelho algum.
Abismo é coisa que se caí no fim de alguns poemas.
Te dedico palavras longe das beiradas.
_
Um gato escaldado
Temos nossos úteros controlados
porque um livro de fantasia disse que devemos ser eternamente gratas por uma costela dada.
Na vida real, é de mim que tu saí levando vitaminas e entranhas.
Nos limitar a casa, pois santa ceia é coisa pra homem que admira e segue homem.
( mas devemos sim, fazer o banquete)
Ser figura prostituída e maltratada.
Na sua mão vezes meu corpo, vezes alvo pras suas pedras lançadas.
Ser a mãe pura, e quando você homem erra, a puta.
Tú é só o filho, só o pai, a responsabilidade por sua irresponsabilidade é nossa.
Mas calma ai, ou se desespere (i really don´t care)
Estamos abrindo com unhas e dentes essas correntes.
As comedoras de maçãs resistem.

espírito

Desci nesse mundo de planos e expiações,
todos os dias defendendo o óbvio frágil,
porque o óbvio é transluzente
e muitos não o enxergam sobre sol algum.
Desci e tem vezes que sinto raiva no meio do amor que tento plantar,
sem conhecer perfeitamente as sementes,
ainda que as carregue nas mãos.
Carrego nas mãos o amor que me veio sem comprar,
sementes que enrijeceram para plantio, conforme eu abria os olhos,
essas que procuram solo, que procuram água, que procuram imensidão.
Eu erro, sim, porque o caminho da regeneração não é perfeito,
porque minha alma não é perfeita,
porque perfeição foi talhada na distopia,
e eu não desci aqui em vão.
Desci, e sei que plantar amor é lutar contra seu contrário,
umedecer vezes com lágrimas, as terras secas.
Todos os dias me é provação, o amor, nunca me foi fácil,
jogo suas sementes à esmo, depois saio catando.
Eu nunca fui fácil para o amor.
_
Por isso não te mando só focos de luz,
te mando também indagações.
Pois o amor antes de qualquer resposta
pode ser uma pergunta que nos fazemos.
Eu me pergunto todos os dias sobre o mesmo sol.
Existe mesmo alma, amor...
Ou essa carne é tudo que somos?
Sem resposta ainda, planto sementes.
_
Algo há de brotar (...)

sentidos

Meus sentidos coagidos à evolução,
estão bagunçados, misturados.
Só lembro do olfato, quando o cheiro grita.
A cebola frita,
a proximidade da clavícula...
Meu paladar saliva
molho a retina.
Me ouço vez em quando roncando,
estomâgo e peito.
Vazios distintos,
padronizados socialmente.
São tempos de enlatados
pro corpo e pra alma.
O que é alimento já vem descascado,
vi ontem ainda, no panfleto desse imenso mercado,
de comida e de gente.
Estou perdendo o tato
em um mundo de pelica
-
Mas ainda sinto muito.

trem fantasma

Te digo adeus sem lenço da janela de um trem.
Vou firme como quem sabe a estação onde parar,
como quem já tem pouso certo, nesse novo lugar que se vai,
depois de um adeus frio.

Te digo adeus sem carta, sem rosa vermelha na tua cama, sem festa de despedida,
nem lágrimas, só um abraço que tu pediu, e eu cedi,
como se meus braços não tivessem nunca te enlaçado.
Sempre te digo adeus como quem guarda todos os mapas,
como quem tá decidida, mulher que não olha pra trás,
como se estivesse certa do que fiz..

Até ando com postura depois, para se por acaso tu me observar indo,
como quem fica as vezes faz.
E é sempre depois de um tempo que reparo que meu trem nunca partiu,
que tu nunca me fitou de janela alguma,
que tu acha caminho antes mesmo que minha condução firme de aços e trilhos, ande.
Talvez se eu tivesse te convidado pra mais um passeio,
ao invés de me sentar sozinha num vagão de um trem enferrujado.
Eu sempre erro de conduta, ou condução.

Ontem esqueci teu cheiro,
nem assim o trem andou.

ou samba-canção

De lânguido flerte
naquele bar,
que se fosse canção
e não gente
beijaria de vão em vão
das entranhas
peito e dentes
de teu bolero.
Mas eras gente,
amedrontada de ter
que começar novamente.
_
Ou essa fui eu sempre?

papo

A -Eu até gosto de poesia, mas não entendo...
B -É tipo andar de bicicleta sem as mãos por um instante, antes de cair e ralar o joelho.
A -Mas, cair e ralar o joelho doí, como pode que seja bom?
B -É, mas as vezes doí só no dia seguinte...
Como se tentasse reter um pouco mais o instante,
e por um instante conseguisse....
Depois, faz aquelas casquinhas que saem no banho,
deixam uma cicatriz clara, que um dia somem, ou não, contam uma história, sabe?
A- todas são assim, feridas no final?
B- Não todas, mas alguns de nós...
Invernei-me nesse inverno também.
Sei que é repetitivo, como se eu fosse uma planta,
ficar plantada aqui esperando outro solstício pra me soltar.
...
Não esqueça de me regar
que já não mais suicido nas geadas por qualquer temperatura baixa.
...
Eu tô viva como uma planta
a qual ignoram que vive
porque nunca serviu de tempero
pra essa fome que sentem.
...
Mas vive.
Mais indigesta que nunca.
Um poema pode até ser um ralo


entupido de alguém.

o barco e os navegantes

Quando passar tudo isso
eu vou sorrir um riso bonito
desses que você já conhece
tu mineradora deles.
Quando passar, porque tudo passa...
Eu vou voltar a depositar o olhar leve,
sobre toda as coisas que pesem, mais do que as horas passadas.
Quando passar tudo isso, eu vou estar um pouco mais calejada
talvez ande mais desengonçada,
mas andar é preciso, diante de tantas estradas.
Quando passar tudo isso, as tantas horas pesadas,
vou guardar essa lembrança grata, agraciada,
a sua mão atada.

Desde já obrigada, desde já obrigada.
O medo é aquele vizinho que cumprimento com a cabeça e sorrisinho amarelo,
mas nunca convido pra um café em casa.
Por falta de intimidade mesmo.
Eu vejo o despreparo nos seus olhos,
e por isso aflito peito dentro,
conflito artesanal peito fora.
Queria que tu tivesse jeito,
que se ajeitasse nesse caldeirão,
aprendesse a mexer o que já borbulha...
Já que quis brincar com a bruxa.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Somos dois seres.
Esse é o nosso óbvio.
Somos dois seres dispersos.
Esse é o nosso intransponível.
Somos dois seres dispersos em duas dispersas particularidades.
Esse é o nosso espaço.
Somos dois seres dispersos em duas dispersas particularidades,
e convivemos bem, dentro do nosso óbvio,
do nosso intransponível e do nosso espaço.
Essa é a nossa poesia.

Achados 22 de junho de 2015

domingo, 30 de abril de 2017

Pacífico, o oceano.
E nós mesmos, líquidos, no globo.
De glóbulos rojos y blancos,
água fraca e mal vitaminada.
Suor corredeira de solvente pra sujeira dessa gente.
Retirados como se não nos fosse nada, nada.
Fosse só mais um pertence e também não nos pertencesse.
Assim nos querem bem,
dizendo tudo bem, em tantas línguas.
Nosso rosto que nos difere é indiferente,
Devemos ser só nariz rente a calçada, e pouco a pouco achar que ali onde enxergamos é nossa casa.
E a deles já completando sete, uma linda no campo.
Nos querem dançando enfeitados em volta da fogueira que antecede pele em brasa.
Oh, minha nossa!
A minha, a nossa.
Incitam nossa dispersão para virarmos atração em vários pontos.
Nos querem digladiando entre nós mesmo, metáforas e decência, usando estilingue nas nossas vidraças, e protegendo veementemente a deles.
Nos querem pacíficos, desejando uns aos outros, a paz tirana e o conforto deles.
Nós querem pacíficos como uma senhora já com setenta e poucos, batendo ponto as sete da manhã.
Nós querem pacíficos, porque nos sabem oceano,
não saberiam amaciar um imenso revolto.
Pacíficos sempre, mantendo a paz deles.
Tão cinza esse dia.
Que dá vontade de escrever sobre você.
Só pelo contraste.
_
Te anuncio a ação e tu pede:
"me faz então, um poema de amor" (...)
_
Do amor não sei uma vírgula.
Mas já acentuei como podia.
_
Meu bem, a poesia, pode estar em minhas narinas frias,
ansiando noite e dia, tua clavícula?
_
Do amor, só sei o cheiro e o arrepio.
Sou dele reagente.
Tenho em mim um mini jardim...
Onde planto forças da estação.
As pequenas nunca colho antes do tempo.
Hoje colhi.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Sou uma terrina de barro
que já se perdeu da tampa há anos.
Sou uma dessas com fundo furado
de raspar colheres
que esvaziaram-me já,
lotados de fome,
quantas vezes?
Sou uma terrina furada
na cozinha da esperança
sem utilidade pra caldos e sopas.
Foi numa segunda feira
que me colocaram no armário central
como enfeite.
Podiam me encher com balas.

Teu desejo é um cavalo surdo,
conduzido a cabresto.
Quem guia reto é teu ego, moço.
Tivemos que gritar quantas vezes pra entender?
Quando não fomos nem estivemos,
dispostas em seu trecho?
Quem guia é você, vestido de galã,
com forjada fama de Don Juan,
de roupas e cuecas limpas, que mamãe lavou.
Não sou nem estou disposta ao seu trecho.
Vou gritar se preciso for.
Ou me junto à elas, faremos canções,
Vamos entoar
até que seu cavalo surdo,
volte a ouvir.
Vai comer muito capim,
até entender o começo do refrão.
_
não...♫
Não sei em que verso de qual poema medíocre,
enfeitado de ego osso de poeta exposto,
deixei teu sorriso padecer de normalidade,
momentos especiais se desmantelarem em casualidade.
Pois permitimos que amornasse todo fogo brando,
e retiramos por despeito aquele apito de fervura
que anunciava e antecedia nossos cafés coloniais,
de mesa cheia de nozes, bolos salgados e nós.
Não sei que desenho te contornei,
sem jogar tinta alguma depois,
e tu ficou em preto e branco rabiscada,
misturada nos desenhos que eu já nem gostava tanto,
guardada naquele armário revirado,
que uma vez era nosso, e hoje é tão meu
que parece espelho e não armário,
mas quase nem reflete nada.
Não sei em quem pensar na madrugada...
Mas não posso que seja em você,
assim, só por falta de sono...
É de um tremendo desrespeito com a história que bordamos,
espetando tanto os dedos, nas agulhas finas do tempo.
Não sei como nasce um poema, nem um amor com destinatário.
Não sei se rasga placenta, terra, ou casca de ovo.
Sei que emudece, muda e morre, sem alimento.
Contei-lhe todos os ossos na despedida.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

Faltou título, mas teve ponto final

Faltou um pouco de dedos na sua insistente ranhura,
que minha pele friccionada, masoquista, não pedia.
Mas tantas noites frias, desse desejo-carícia, que tu não se cobria,
e ambas passávamos frio nos pés silenciosos.
Noites insones, gargantas secas de palavras úmidas não pronunciadas, por um pacto de ser resistente ao que mela e unta, e ridiculariza o amor.
Faltou um pouco de ridículo nos nossos dentes bem desenhados na pele próxima as nossas partes íntimas.
E risos retidos a meio dente, depois da meia noite e muitas doses.
Faltou desenhar nosso íntimo na fumaça dos nossos cigarros calados, esses que queimavam o tempo de um pós zeloso ideal de inverno infernal.
Sobrou na sala um pouco do conhaque, violência, gozo e mudez.
Faltou falar que faz falta cafuné depois, nessa bagunça de cabelos.
Faltou que eu fosse pra ti, mais que a pele embaixo das suas unhas, faltou que tu fosse pra mim,mais que as unhas.
Faltou que fossemos de encontro.
Não fomos.
_
A falta é simples na pele,
só quando não faz mais falta

quarta-feira, 15 de março de 2017

Novamente meus pensamentos, até os uma vez estagnados,
estão revirados , mexidos-tipo-ovos-mexidos,
desdobrados com cuidado de papel manteiga amassado,
(o número dela dentro)
um descuido somado á frenesi nas mãos.
Se houvesse uma porta para compreensão,
e que se abrisse facilmente sem emperrar,
o destemido ser adentrante,
me perderia em meio ao lugar
de tantos sentimentos coloridos,
e destoantes um dos outros,
jogados de fora a fora, tipo serpentinas entrelaçadas,
eu encolhida num canto dessa pseudo sala em fim da festa.
Se ele aproxima e escuta minha risada ébria,
é porque já me é conhecida essa
ressaca sentimental-pensante,
de outros carnavais fora de época.
Quase sempre amanheço rindo sozinha
pro caos.
Em outras encostada em seus ombros.
Mas sempre amanheço acompanhada,
desse amigo invisível que me ronda.

(Enxergo em cor de estrela cintilante)

sexta-feira, 3 de março de 2017

Sesta das salamandras

Cobravam teus olhos um emergir do meu clarão,
tu que fareja bem qualquer lampejo,
tipo mariposa acrobata e tola
que corteja a lâmpada elétrica e muda.
Eu que no agora te pareço soturna demais?
Ou tu que sempre chega no findar das velas,
cega, tateando as paredes,
grifando as canelas nas quinas dos móveis?
O anseio por fogo, denuncia teu pavor da noite.
Pois eu que possuo os dois no mesmo peito,
renego esse cortejo zunido de inseto,
que insiste em insultar o meu tempo.
Esse silente que não ouves,
é meu grito que respeito.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

O amigo e o plural.


O jeito que me olha quando Aquele chega.
Aquele, que fez teu coração exigir sua atenção,
como um louco desvairado ao centro da praça,
da sua camisa roxa de botões aveludados.
O jeito que me olha...
Me faz te perdoar por ter que ouvir amanhã no café puro,
teus recorrentes lamentos ao permitir que Esse...(já ferida carimbada e cicatrizada nas tuas clavículas)
Te ferisse por mais uma noitada.
O jeito que ri de marejar sem pranto
que criam felizes poças cristalinas,
por onde pulas as meninas dos teus olhos...
Que as transmutam o vestido de cor,
de escura madrugada,
à lapso de azul turquesa entardecer.
O jeito que ri...
Me faz lobotomizar de todos os foscos,
toscos, tolos, e insossos momentos, que a vida vira em lama
e não pulam por nada as meninas minhas.
O jeito como parte e fica,
como se fosse intransponível Ser.
Me fez amanhecer.
_
Nessa vida também.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

Eu pensei em escrever corretamente os meus defeitos
pra que na sua leitura de bom senso
me lesse com aquele brilho nos olhos
com que lê as poesias "deles".

Eu pensei no corpo do texto
como o homem que desenha a mulher
escondido embaixo das cobertas...
Mas eu não soube ser tão tola,
meus defeitos tem corpo, não projeções.

Eu pensei que meus defeitos eram aventureiros e davam a volta ao mundo,
percebi que superestimei suas fadigas quando os vi em bando
sofrendo ao dar a quadra.

Eu os encontro pelas esquinas e solto bom dia, mas não lembro das suas feições.
Devem ser suicidas.
Ou eu assassina.
Pois em outros textos desvairados,
assassino eles com cuidado.
Sem que morram.

Mas que confuso.
Descobri de todo errado, que esses pobres coitados,
fizeram do meu ser, ocupação.

Mas no meio de uma nova escrita, que eu nem sei será lida,
descobri uma comunidade, que vive no interior.
Defeitos e certos acertos, moram cá dentro do peito e fazem festa no verão.

Ai te escrevi esse texto, sem corpo mas meio arfante,
pra dizer na pressa de um errante,
que não espere a perfeição.
Essa poesia, querida pessoa bonita...
Não é pra te deixar aflita.
E pra contar no meio de um riso,
que agora sei o que me habita.
Alguma coisa acontece no mundo
alguma coisa plural, borbulhante, viscosa.
Alguma coisa que arranha, que assopra
que finge-que-passa.
Tô...
Tapando os olhos, maltratando as entranhas,
tratando com remédios pra azia,
coisas que os noticiários não noticiaram.
Coisas abafadas que fazem sauna podre
para as meninas dos olhos.
" E se você fecha o olho a menina ainda dança".
Tenho dançado.
Alguma coisa acontece com o mundo.
Ando tão fora dele, que só sei por correspondência.
Não respondo, porque alguma coisa acontece comigo.
alguma coisa plural (...)

domingo, 5 de fevereiro de 2017

Andava à esmo, na praça onde nos apaziguávamos,
e lá estava a memória alva,
me puxava pelo faro.
Quis saber de você...
Cheirei tão profundamente aquelas jasmins,
que doeram meus pulmões tratados à cigarros.
Lembrei do teu olhar ao vê-las aquela vez, e me ardeu um arranhado antigo, das tuas unhas roídas.
Como podem aqueles dias transformarem-se nesses?
Eu perguntaria às florzinhas mudas.
Se elas me respondessem...
Quem sabe...
Quem sabe?
_
Se a gente soubesse.

A negativa

Tu apareceu no meu tarot.
Nas previsões astrológicas que acompanho com a descrença de quem já provou o engano.
Tu apareceu na nuvem de rabo de galo no céu,
anunciada de mãos dadas com a chuva de verão.
Tua cara se meteu no meu desenho de paisagem.
Em todas minhas escritas de domingos.
Profetas loucos no centro da cidade, antecipam aos desavisados o fim do mundo, e você.
Os dois vem, eles falam babando.
Eu chacoalho a cabeça, rio pra baixo com pressa, finjo.
Não acredito, mas começo a tentar abrir um espaço que te caiba em meio as minhas coisas de vida empilhadas.
Não cabe, choro, nunca vai caber, nunca te coube, nunca.
Desespero só porque não quero, não te quero tá me ouvindo?
Insisto que não passe dessa porta.
Chaveio tudo, espio pela janela.
Já fazem duas semanas, que espero que não venhas.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Bff imaginário.

Olha como estou destraida Zé.
Terceiro café que esfria sozinho, sem que eu me dê conta.
Não ando dando conta, nem de café Zé, percebe?
Parece até que volito sobre todos esses últimos dias
desde....Desde que Zé?
Tu lembra?
Onde desencadeou todo esse estado de perdição?
Se ainda fosse aquelas perdições que te acordam de ressaca
rasgos em roupa
e boca doendo de risada, como valeria não?
Não vale nada, passar assim, sem tesão
mas morrendo, morrendo dele, entre os dedos.
Me sacio porque não mastigo nada dessas horas que me apeteça o paladar
Só minha própria língua quando meu imaginário joga na cara
aquelas coisas que eu devia ter falado naqueles diálogos machucados.
Eu tenho certeza que ainda encontrarei alguém à quem remeter meus últimos escritos
Um Leonard pra toda minha Virginia.
Parece bonito essa coisa de não aguentar e contar pra alguém,
"nem que seja a última coisa que eu faça".
Vejo piadas onde não tem Zé.
Onde tem me parece obvio.
Tudo parece obvio.
Me chamo obvia, e é ai que te chamo Zé.



sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

À todas que me mostraram o caminho

Um dia, haverá uma rua que levará à única praia propícia para banho...
A rua levará também teu nome.
Eu pisarei com respeito toda sua história.
Pedindo licença para mergulhar na inspiração.
Tu que sempre devolveu as conchas à costa do mar.
Tu que nunca romantizou as ondas.
Tu que arranhou a areia.
Tu que salgou tantas bocas.
Um dia haverei de ir lá.
Onde o anonimato não te apontou, mulher,
com riso tolo de quem não entende, que é?
Um dia contarei marejada, tua história para todas as sereias

pixada

No fundo o fundo não importa
Minha carcaça que pensas talhada bonito,
ainda é o que te faz desenhar corações pela cidade.
Cada dia que me preencho o fundo
e talho, com lâminas afiadas de vida, a carcaça.
Mais partidos nos desenhos antigos tu traça.

Ainda tem 123, só na Av. Central

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Eu sou de verdade, me toca...
Lembra daquele meu penúltimo erro, daquela última vez que fui grosseira de graça?
Lembra do meu arrependimento no dia seguinte?
Falando um pouco pra ti um pouco pra parede, como seria bonito o nunca mais?
Lembra quando eu fiz de novo?
Eu sou bem real, me olha...
Ainda lembro daquele dia que choramos e soltamos uns grunidos abafados do tanto que ríamos, e ainda que eu não lembre do que era, lembro de todos os seus dentes alinhados, e da sensação de ser feliz.
Lembra aquelas vezes todas que fomos?
Eu sou isso mesmo, me ouve...
Lembra de ontem ainda ou antes, quando tu ainda me ouvia, quando eu ainda te falava, quando no toque a gente ainda se encontrava no montante de todas as outras coisas que nos perdíamos?
Lembra da reciprocidade?
Lembra ainda, de mim?
Eu que lembro até dos rachados da sua boca.

(rabisco encontrado)
Eu sou clichê sim
com meu café preto na xícara lascada
meu cigarro, e tantas xepas no cinzeiro que nem é.
A solidão é, e me faz não escrever de amor.
O amor não é.
Não isso, não isso.
Escrevo só pelo que tem, ou pelo que falta.
Vou escrever sobre café e mar.
__
Até quando?

Quitandeira

Veio aqui procurando consolo pros lamentos todos,
pras dores não curadas,
cura pra fraturas de palavras expostas,
métricas possíveis pro tamanho que insiste em não lhe caber,
salvaguarda pros amores brutos, amores calmos,
e todos os meio-termos que também não "funcionaram".
Procurava às vezes por versos cândidos, pomada, assopro, ou afago.
Outras chegava barganhando de um pouco do fácil, o tátil, o afável, a resposta certeira, ou o teatro.
Queria tudo em quantidade que matassem a fome metafórica que a possuía.
Me pensava quitanda dessas coisas todas.
E eu só dividindo o que tinha em minha despensa.
Eu, que também tinha fome.

domingo, 22 de janeiro de 2017

Rasga-me como um pé de alface pra salada.
Retrata-se à mim, como se pedisse desculpa a uma criança
em que bateu sem querer com os joelhos no corre-corre do dia-dia.
Fala-me com um choramingar como se tivesse pisado o rabo do cãozinho.
Trata-me com a complacência pelo que mede menos,
em tantas métricas possíveis.
Uma cara de umbigo saltado que te engolfa.
Take care, que eu cresço e te engulo.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Tem dias que já acordam escovados, rindo dentes limpos,
que se alimentam só do saudável da despensa.
Nos beijam as dobras dos joelhos e vão subindo...
Nos dizem bom dia sem voz alheia.
Tem dias que me sinto completa.
Abro as cortinas pro sol beijar
o outro sol que me habita as entranhas.
Tem dias que até me estranha...
A falta da falta

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Minha poesia, e meu corpo,
duas linhas tênues,
onde escrevo minhas regras.
Onde tua mão boba, se bobear,
leva na face a minha certeira.
Nunca fui boba,
nem ruim de mira.
Acerto o alvo, se houver...
Mesmo nas palavras que erro os acentos.
Minha poesia e meu corpo,
dois amantes violentos
que se protegem.
_
Todo café que me convida é em três, e arriscado
Eles que não possuem lareira nem casa, e vendem pó de flu artesanal.
Eles que quebram os trenós de gringotes por revolta, falta de educação, ou fácil água de riso.
Eles que traficam ovos de rabo córneo húngaro pela travessa do tranco, estômago torcendo.
Eles que barganham galeões pelo beco diagonal, e plataforma 9 3/4.
Eles que ganham suéteres usados pela família Wesley.
Eles que não aparecem na história.
A história se repete e pulsa, no mundo trouxa.
O dia que meu respeito caiu de cara no chão, pra justificar paixão.
O dia que calei minha voz aguda, pra deixar falar "um ele" no vozeirão.
O dia que fui só fenda, só fluido, só simpatia, só recepção, pra agradar falácea, falo, chefe, bossal, e firula.
O dia que fui menos mulher que sou, pra ser a mulher esperada.
Esse dia nunca amanheceu.
O sol sabe o que abrilhanta, e me rege.

Gata vira-latas e Coruja pomposa

Tu arrulha,
eu ronrono
Conversa de telhado.
Tu dança no céu,
gira a cabeça.
Eu danço equilibrada nos muros,
faço yoga.
Te caço d´outra forma.
Tu me espia de um olhar
que eu não desconfio.
Flertamos o impossível,
porque o desconhecemos.
Só nos sabemos vivas,
e que é lua cheia.
A única vez que tive mecenas
a arte que ela de mim gostava,
estava tatuada na minha coxa.
Chandon, e banheira,
como é gostosa a besteira.
E passa aqui.
Sou de Kaiser gelada no verão.
Campo Largo no inverno.
Me banco.
Me sou.
Me despeço, sem lenço.
Digo que foi bom o momento.
Não sei viver dessa vida,
que me compara á bebida
Os olhos de água
Que tu nadava, e agora nadam,
aqueles mesmos nadas.
Com toda fundura,
de não dar pé.
Fui um pé d´água ontem,
mas só hoje cataclismo-me.
Depois vem a seca,
(eu sei)
e é ai que mora o perigo.
_
As marcas que ficam.
depois do dilúvio.
Hoje eu queria ser um pássaro
Um peixe
Uma joaninha ou qualquer inanimado.
Hoje eu até queria ser aquela terrina de barro
Mas eu, eu mesma não.
Amanhã quem que sabe?
Mas diz que devemos viver o hoje.
Que comédia.
Que indecente essa sua proposta
Me dizendo pra aguardar
que terá aguardente
um guarda de costas
e nós duas aguadas
expostas ao sol pra secar.

Que indecente que me peça
pra esperar, e não ter pressa,
que me pensar intensifica a proposta.

Que tolice o meu repetitivo sim.
que te digo, mais uma vez.
Desenho moças na vidraça
com o bafo da minha boca.
Escuto Ângela Rô Rô, com uma dor gostosa
que nem sei se é minha.
Flerto com o espelho, como faria...
Que aguardar arrastado,
meio bolero, meio vinho azedo,
meio solitário.
Aprendi com as flores a esperar,
como uma aluna desatenta.
Venha enquanto é dia, e eu doce.
Quando anoitece,
aquela outra me invade.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Estão mancomunados, o cérebro argiloso moldado, ao falo dos seus senhores adorados.
Vez-em-quando se ajoelha por pura tietagem academicista
(que não te comparem á esses pederastas, que tens receio de apertar a mão e perder o culhão).
A tua poética espalmada, cega de um olho, tateante.
Desprovida de entendimento por puro " brilhantismo-contemporâneo",
que tamborila o brutamonte-gourmet e o intelectual-podre.

Batam pernass senhoras, pois os senhores
planejam, com fumaças de charutos fortes, a disseminação do afronte.
(Sejam coniventes, eles precisam disso, do contrário o peito murcha).
Tosse, perdeu a pose.
Começa de novo, e não para o frenesi.
Tosse, perdeu a tese do tcc da sua quantagésima graduação.
Essa ganharia um nobel-sei-lá-do-que, que sempre ganham os homens.

"Mulher, a histeria desse século tal"

Perdeu o fio da meada, e novamente vomitou pelos dedos.

(Depois cê limpa ali, secretária ;)

-Conheço tantos com a tua cara-

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Me desejava um boa noite seco
tipo farinha sem feijão.
Direcionava conversas cifradas, e diminutas
como quem já tá dormindo e não sabe.
Logo de manhã, me cobrava entrelinhas não lidas,
como se eu fosse então, a analfabeta de jargão.
Já engoli tanto.
Ora-essa.
Não sei e não vou lidar com estrelinhas de céu de ontem.
Tenho constelação no peito, brotam todos os dias, sulferinas.
Prefiro o brilho fast, que esse teu, fosco-blasé-na-moda,
não te reflito, te refugo.
Porque sou dessas.

ciranda

A senhora cíclica
me habita o ventre.
Diz á minha velha alma
entre-dentes-rindo e sussurros-semi-secretos
que eu aproveite o útero renovado, e crie.
Sei que não fala de rebentos,
me conhece.
Ela também lê poesia
de moça inamorável.
A senhora cíclica hoje
tá cheia.
Me fala das marés...
Diz que vai aprontar, por lá,
já avisou Iemanjá pra estourar pipoca.
Recomenda q´eu apronte por aqui.
Como se precisasse recomendar coisa alguma
á uma aluada.
É noite de ciranda.

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

ontem, ainda

Ontem ainda, quis te encontrar na fila do banheiro de um bar qualquer,
reviver uma daquelas cenas repetidas, provocadas, multifacetadas...
Ontem, ainda, queria uma cena com a tua cara.
Deitei e brinquei tua memória, desconfio que superestimei
teus rodeios e/de dedos, trejeitos, fiz uma alusão ao teu cheiro,
fiz graça com a minha recordação falha pra geografia, mesmo repetindo tantas vezes teu mapa.
Tanto fiz que ontem ainda te engoli até não me caber.
Hoje já nem quero, de te ouvir falar, sinto pruridos.
Alergia de reversos.
Mas ontem ainda...

meu samba

Todo esse teu rock´and´roll
se desmancha no meu samba.
Eu sei.
Engraçado ver teu quadril resistindo
a minha saia arriada, meu pé descalço,
louca pelo encalço da minha malemolência,
e a leveza que tu ainda não tinha visto.
Sou de pluma, onde tu é de paetê.

vou fazer cena

E eu viajaria no dia seguinte bem cedo,
uma dorzinha enrolada na toalha estocada dentro da mala, pesando mais a indecisão da lua em libra,
que nunca sabe o que vestir em certas noites.
E de manhã bem cedo eu sentaria a espera do ônibus, pensando que viraria, novamente,
dois copos e um ano com o peito ventilado de tão vazio.
E de manhã bem cedo tu apareceria de pijamas, cabelos desgrenhados á minha procura por entre carrinhos,
crianças e abraços.
E quando me encontrasse, desaceleraria o passo, ficaria meio mole, rindo besta, olho brilhando.
E me apertaria forte, tão forte, que eu te engolfaria pro meu antes-vazio, que já te esperava.
A mala alivia na mão, começa aquela música, a dor foge pelos arbustos laterais da estação.
E eu sorriria por todo o caminho de ida e por todo o retorno.
- Terá amor! Eu gritaria pelas estradas.
- Terá amor!
_
Eu devia ter feito cinema,
de tão clichê.

Jaraguá 16/17

Não tem essa paz utópica dos bem nascidos.
Tem uma de bem vivido,
bem vindo, bem lindo.
O riso aberto, a falta de pose, o excesso de calor, os mosquitos todos.
Tem mordidas, melancias, maçãs, meninas, e os melhores homens de saias que já conheci.
Logo mais tem piscina, mas, paz utópica dos bem nascidos, não tem.
Nem sei como é.
_Tem vezes que silencio,
por dentro fico fazendo festinha.
Tem um ano novo no meio.

Cara mia

Hoje tua bagunça não me faz tropeçar nas peças,
ou ser eu, a peça, desse teu tabuleiro desmemoriado.
Hoje eu nem movo de quadrado,
"peça tocada é peça jogada", diz tua regra.
nesse jogo prefiro me tocar sozinha.
Deixo que se matem reis e cavaleiros ao meu redor.
Faço poses, uso coroa e sou rainha.
O tabuleiro se estica hoje é na minha casa,
e o jogo é outro, um mais com a minha cara,
cara mia*.
Ódio, aqui não é mato.
Mato é vida, pega sol e chuva, brinca no vento,
se alimenta dos mesmos nutrientes que as orquídeas.
Ódio é o falho-fácil, brota fedendo, no meio das faláceas, das entranhas do que se estranha,
dentre a ignorância dos que tem acesso e por opção ignoram.
Pra ter ódio basta uma televisão já ligada na tomada, proferindo alienação em um bom som,
um padrão, um olho tapado e outro com visão retilínea, basta ver o arpoador e evitar as favelas.
Pra ter ódio bastam ter ouvidos bons á toda mal criação, á piada recorrente,
da loira, do veado, do preto, do português do ambulante, basta medir a sociedade pelo que se come,
pelo que se veste, pelo que se compra.
Pra ter ódio, bastam as frases feitas, bastam doses cavalares de violência, e evitar o diálogo,
os que odeiam não escutam.
Ódio brota por todos os lados,
mas não é mato. Mato é vida!
O ódio já nasce morto.